Por André Lucania
24 anos da morte de Garrincha
Dia 20 de janeiro entrou para a história do futebol. Mas infelizmente não foi por um motivo alegre, e sim pela perda de um dos maiores gênios que Deus já colocou nos campos de futebol. Nesse dia, no ano de 1983, Manoel dos Santos, o Garrincha, faleceu vítima de problemas de saúde provocados pelo álcool.
Garrincha não foi apenas mais um grande jogador que o futebol brasileiro e Mundial teve. Foi único, o Gênio das Pernas Tortas que deitava e rolava sobre os "Joões" da vida, mas sempre com alegria, humildade, sua principal característica. Com Garrincha, o povo brasileiro apurou o seu gosto pelo bom futebol e a arte de jogar esse esporte, o mais popular do Mundo.
Nascido em 18/10/1933, na pequena cidade de Pau Grande, no interior do Rio de Janeiro, Garrincha era de uma família humilde, de descendência indígena. Foi nessa cidadezinha carioca que o Manoel cresceu e começou a dar seus primeiros dribles. Mas além da bola, outra paixão do garoto era caçar passarinhos.
Antes de jogar futebol, Garrincha foi trabalhar na fábrica de tecidos, a América Fabril. Mas aquele não era seu futuro. Assistido nas peladas pelos campinhos da cidade, Garrincha foi fazer testes e alguns clubes cariocas, mas não foi aprovado, seja pelas pernas tortas, ou até mesmo pela falta de uma chuteira, como aconteceu no Vasco da Gama.
Até que um dia um ex-jogador do Botafogo, Araty, assistiu Garrincha e o levou para testes no Botafogo, onde acabou ficando e assinando seu primeiro contrato em 1953. Mas a história sempre contava aos quatro cantos, de que o futuro maior camisa sete que o Brasil teria fez miséria em cima do lendário Nilton Santos é puro folclore. O próprio Nilton desmente o ocorrido.
Sua trajetória no Botafogo foi de glórias até 1962. Durante esse período o jogador ganhou três títulos cariocas pelo time de General Severiano e enlouqueceu as defesas do Flamengo, do Vasco e do Fluminense. Na seleção brasileira, ganhou projeção conquistado ao lado de Pelé o título de 1958, na Suécia.
Mas quatro anos mais tarde foi o ápice da carreira de Garrincha. Na Copa do Chile o Brasil ficou sem Pelé, machucado, logo no início da competição. Sem o maior jogador do Mundo e com uma seleção considerada velha para muitos, restou ao camisa sete acabar com a competição, dando o bicampeonato ao Brasil. Nesse Mundial não foram só de dribles e passes para gols que Garrincha se destacou, mas sim por marcar gol de cabeça, de fora de área, entre tantas outras coisas, sempre com a maior alegria.
Depois de voltar ao Brasil consagrado de vez, Garrincha começou seu "inferno astral". Uma contusão no joelho o tiraria do futebol. Mas se não fosse a ambição dos dirigentes do clube carioca, o camisa sete poderia até ter se recuperado e continuado a jogar seu futebol magnífico.
Em 1963 o Botafogo renovou o contrato de Garrincha por três anos, mas nessa época o joelho do Gênio já não andava bom. Mas nas excursões que o Botafogo realizava na época pela Europa e América precisavam da presença de Garrincha. Com ele em campo, o Bota recebia um valor, sem ele, o pagamento era muito menor. Para tê-lo em campo, o também médico da seleção brasileira, Lídio de Toledo, aplicava injeções para que o joelho de Mane desinchasse e ele pudesse jogar. Depois das partidas as dores e o inchaço voltavam. Era o início do fim da trajetória de Garrincha pelos campos.
Sem confiar mais nos médicos do Botafogo, Garrincha acabou operando o joelho com Mário Marques Tourinho, médico do América. O craque não precisou pagar nada pela cirurgia, o preço cobrado pelo doutor era o tricampeonato, na Inglaterra, no ano seguinte.
Garrincha deixou o Botafogo e foi vendido ao Corinthians, mas no Parque São Jorge o jogador já não conseguia desenvolver seu bom futebol. Em 1966 foi para a sua última Copa do Mundo, na confusa convocação de quatro seleções feita pelo técnico Vicente Feola. Foi a última vez que Garrincha e Pelé jogaram juntos. Como não poderia ser diferente, com os dois em campo o Brasil nunca foi derrotado.
O Brasil teve uma de suas priores campanhas em Copas do Mundo na Inglaterra. Foi lá também que Garrincha teve sua única derrota com a seleção, ao perder para a Hungria.
A vida de Garrincha para o futebol acabava de vez aos poucos, enquanto sua vida pessoal, que sempre foi conturbada pelo envolvimento com mulheres (entre elas a cantora Elza Soares), com as quais teve vários filhos, além da sua eterna e fatal companheira, a bebida.
A humildade sempre foi talvez a principal característica de Manoel dos Santos, tanto é que foi enganado por diversas vezes, seja por mulheres, dirigentes, que o ludibriavam e faziam com que ele assinasse contratos em branco, ou empresários.
Tudo isso acabou deixando Garrincha sem a fortuna que merecia ter conquistado durante sua carreira. Em 1973, quando atuava apenas em partidas de exibição, o Maracanã ficou lotado para receber Garrincha no "Jogo da Gratidão", com a renda sendo revertida para o ex-jogador e também parte para sua primeira mulher, Nair.
O alcoolismo o consumia e o dinheiro acabava com sua relação conturbada com Elza Soares. Até que em 1977 seu casamento acabou após a cantora sofrer uma agressão de Garrincha. Depois da separação o craque se uniu com Vanderléia, com quem teve uma filha.
Seus últimos anos de vida foram de participações em programas de televisão e também em jogos de exibição, promovido por ex-jogadores em troca de pouco dinheiro.
Muito doente e frágil Garrincha acabou morrendo no dia 20 de janeiro de 1983, vítima do álcool que, segundo a autópsia, já tinha consumido seus cérebro, coração, pulmões, pâncreas, fígado, intestino e rins.
Mas o que fica eternamente na memória de quem viu e na história do futebol, são os dribles fantásticos de Garrincha, os gols, os títulos, a humildade, mas principalmente a alegria de jogar futebol que contagiou torcedores do Botafogo, de milhões de brasileiros e de todos os que gostam do futebol.
NOME: Manuel dos Santos Data de nascimento: 18/10/1933
NATURALIDADE: Pau Grande (RJ)
POSIÇÃO: ponta-direita
TÍTULOS PELO BOTAFOGO: Carioca de 57, 61 e 62, Rio-São Paulo (62 e 64)
TÍTULOS PELO CORINTHIANS: Rio-São Paulo (66)
TÍTULO PELA SELEÇÃO: Copa do Mundo de 58 e 62
JOGOS PELO BOTAFOGO: 579
GOLS PELO BOTAFOGO: 249
JOGOS PELA SELEÇÃO: 60
GOLS PELA SELEÇÃO: 17
CLUBE QUE ATUOU: Botafogo, Corinthians, Portuguesa Carioca, Bangu, Flamengo, Goiás e Olaria
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