Arena FC - O Palco da Informação
Home Page
SEU TIME
Corinthians
Palmeiras
Portuguesa
Santos
São Paulo
São Caetano
Botafogo
Flamengo
Fluminense
Vasco
Atlético-MG
Cruzeiro
Grêmio
Internacional
Seleção Brasileira
Pelo Brasil
Pelo Mundo
Jogos Perdidos
Futsal
COLUNISTAS
André Lucania
Tatiana Perry
Thiago Tostes
Convidado Especial
ESPECIAL
ArenaFC Indica
CAMPEONATOS
Brasileirão
ARENAFC
Ranking do ArenaFC
PUBLICIDADE
Anuncie aqui
CONTATO
Fale conosco

 

O ArenaFC segue a série de entrevistas com jogadores, ex-atletas e jornalistas, cujo tema são treinadores. As entrevistas fazem parte da revista Super Técnicos, trabalho de conclusão de curso do futuro jornalista Dassler Marques, que também passa a colaborar com o ArenaFC.

Confira o bate-bola com o editor-chefe do site www.futeboleuropeu.com.br, o jornalista Leonardo Bertozzi.

- O fato dos clubes europeus terem uma estrutura diferente dos brasileiros prejudica para que treinadores daqui atuem na Europa?

Falta um know-how a eles, não sabem lidar com a maneira que os clubes funcionam por lá. Pra citar um exemplo, não tem nenhum técnico brasileiro que esteja habituado a estrutura inglesa onde existe o manager e ele não é só técnico do time. Onde ele tem responsabilidade sobre a contratação de jogadores e montagem de elenco. Isso já se tentou fazer alguma vez por aqui, com treinadores que até têm capacidade. Mas a questão é que os clubes são meio fechados pra isso aqui, você vê que as direções não se abrem pra isso.

Outro fato que prejudica é a pouca continuidade que eles têm por aqui. Ninguém aqui tem trabalho de longo prazo pra mostrar pro europeu. Não há um técnico que tenha ficado três anos em um clube e tenha ganhado títulos. Hoje o técnico que fica um ano no clube brasileiro já é um herói.

E na Europa não se convive com esse trabalho imediatista como aqui. Enquanto não se mostrar isso, vai ser difícil de convencer o europeu. Tanto que o Luxemburgo foi pra lá depois de mais de uma década de vários trabalhos, alguns mais consistentes, e ainda assim teve dificuldades.

- Você acha que o futebol europeu valoriza ainda mais os treinadores do que aqui?

Valoriza. Principalmente pelo fato de darem mais tempo pros treinadores trabalhar. Eles não jogam todo peso em cima do treinador, eles têm um projeto esportivo muitas vezes diferente. Não é a toa que você vê que às vezes termina uma temporada, o time não ganha títulos, como o Milan recentemente, por exemplo, e fica - como ficou o Ancelotti.

Eles acreditam na pessoa, no treinador, e o resultado, embora seja muito importante, é relativizado. Se observa a capacidade de lidar com o grupo, resistir a pressão, vários fatores não só apenas ligados aos resultados. Como o Mancini, por exemplo, na Inter, que não ganhou e está aí. É respeitado como figura humana, pelo que foi como jogador. Eles dão mais tempo pra trabalhar - essa é a grande vantagem.

- Os treinadores europeus são mais versáteis que os brasileiros? Estão preparados pra dar conta de mais atribuições?

Sem dúvidas. As exigências são diferentes. Eles têm que tirar diploma e têm que fazer curso (na Inglaterra e na Itália) - você tem que se preparar. Não existe o jogador que no dia seguinte se aposenta e já está treinando um time. Eles precisam se capacitar, aprender com outros treinadores.

Eles têm que ter não só o conhecimento tático e técnico, tem que ter um conhecimento estrutural, de como funciona a estrutura do clube, entre os clubes, de mercado de jogadores. Tem que ter habilidade de negociação, renovação de contrato - aqui é difícil ter isso.

Por exemplo, quando um jogador quer renovar o contrato, você não vê o técnico negociando. Está sempre lavando as mãos e jogando pra direção do clube. Ainda nos clubes italianos e espanhóis, que não funcionam como os ingleses, há proximidade ainda muito maior. Acho que no Brasil a gente tenha grandes técnicos em treinar o time, no dia a dia, tanto que aqui os times treinam mais que na Europa, sempre em dois períodos.

O futebol brasileiro vive fases de preferências táticas. Há poucos técnicos que saibam jogar em vários sistemas. Hoje você vê muitos técnicos presos a três zagueiros. Não quero criticar, mas ele pula de clube em clube e não muda aquele esquema que tem na cabeça, ao invés de pegar onde aqueles jogadores dão condições de montar um esquema - ele faz ao contrário.

Na Europa, você vê vários times que te dão opções de mudar a formação dentro do jogo. O Ancelotti fazia muito isso, jogava com um atacante só fora de casa. Aqui é muito difícil você ver um técnico mexer no esquema durante o jogo com competência.

- Resumindo então, porque tão poucos treinadores daqui vão pra Europa?

Acho que a questão cultural é importante sim. O técnico brasileiro tem que ter continuidade e nenhum se estabelece. Precisaria pelo menos um técnico ir pra lá e fazer pelo menos dois bons trabalhos pra que se abra o mercado pra outros. E aí se isso acontecer, vai tirar esse circulo vicioso daqui. Precisa começar a sair desse círculo. O técnico brasileiro na Europa seria interessante até pro nosso mercado interno.

- Algumas passagens de brasileiros pela Europa, você poderia comentar?

O Luxemburgo teve dificuldades no Real Madrid, tentou se impor rápido demais. Ele talvez não tenha tido a idéia que lá ele não era o figurão que era aqui. Foi com um trabalho de muita imposição e talvez precisasse de mais habilidade com isso. Ele tentou vencer no começo com o braço de ferro, e perdeu o elenco - você via que o time não respondia dentro de campo. Obviamente, pela pouca experiência internacional dele, não teve muita paciência dos dirigentes também. No meio da temporada, a diretoria se voltou contra ele.

De repente se ele tiver uma nova oportunidade em clube de meia expressão, pode sim dar certo. Não pode se descartar. Foi um aprendizado pra ele como técnico e até bom pro caráter dele, pra ele aprender que pode aprender também.

A passagem do Lazaroni foi muito estranha, pois foi muito rápido. E não dá pra entender a escolha deles, porque ele tinha feito uma Copa terrível pelo Brasil em 1990. Teve dificuldades de adaptação. E curioso que ele está lá de volta - no Trabzonspor.

Eu tenho muita curiosidade pra ver como se sai o Zico no Fenerbahçe. Foi uma apostada ousada, porque ele teve muitos altos e baixos na seleção japonesa na primeira experiência como treinador.

A experiência do Felipão é sensacional. Muita gente pode não se dar conta, mas ele sempre trabalhou muito no estilo europeu. Mesmo aqui no Brasil, aliava as boas qualidades de treinador sul-americano com o treinador europeu, e isso deu certo em Portugal.

Deu uma abordagem nova a um grupo de jogadores e acreditou neles até o fim. É uma figura extremamente carismática. O bom comandante não é aquele que dá instruções pros outros obedecerem. É aquele que faz os outros acreditarem que isso dá certo.

O Felipão tinha aquele grupo de jogadores, quatro ou cinco, que vão com ele assumir a responsabilidade. Na volta do Figo, ele foi importantíssimo. Até nessas pequenas coisas ele teve méritos. É hoje o grande exemplo de brasileiro bem sucedido lá fora por um grande tempo. E terminando com Portugal ele pode pegar outra seleção grande, ou um clube grande, e servir de exemplo do técnico que vai e fica.

- O futebol português é uma situação diferente pros treinadores brasileiros?

Totalmente, até pelo grande êxodo de grandes jogadores e a não limitação de estrangeiros. Quando um brasileiro chega lá, a facilidade é muito maior. Curiosamente, faz tempo que não tem um brasileiro em clube grande lá. Engraçado, que teve na moda os treinadores holandeses por lá (Adriaanse e Koeman) e não são estilos que batem muito.

Nenhum técnico brasileiro chegou nesses times de média expressão e foi bem. Bonamigo não foi bem no Marítimo. O futebol português tem recorrido mesmo aos portugueses, como o Jesualdo Ferreira, que já é velho, foi pro Porto. O Brasil não tem encaixado nem em Portugal.

- Comparando estilos, existem poucos treinadores paizões no futebol europeu? Trata-se de uma relação muito mais profissional?

É mais. A figura exclusiva do motivador não existe muito no futebol europeu. É mais uma relação de confiança, diferente de passar a mão na cabeça de jogador. Alguns até tem essa amizade com jogador, mas respeitando a linha que separa os dois. No futebol britânico essa linha é bem desenhada. Na Itália, até pelo sangue latino, existe um pouco mais.

Você vê mais nos clubes menores, como o Donadoni no Livorno que abraçou o grupo, o Serse Cosmi era um cara excêntrico, o Spalletti, o Prandelli. Não chega ao nível do paizão brasileiro, mas são técnicos que conseguem fechar mais o grupo.

- O trabalho motivacional é diferente? Especialmente com base no factual.

Não acontece esse uso da notícia. O técnico se preocupa mais em manter os jogadores concentrados. Em grandes clássicos, você apela para a rivalidade, torcida. Essa motivação factual é muito rara. O trabalho é bem mais técnico e tático.

- Os europeus são mais estrategistas?

Por ser um trabalho mais comum lá, não se preocupe tanto em destacar o técnico como estrategista, que é o que eles são em maioria. Existe uma preocupação muito grande em ter várias opções táticas, conhecer bem os adversários, saber preparar seu time. Isso é muito mais difundido lá do que aqui. Se você for por à grosso modo, o estrategista e o motivador, os europeus são muito mais estrategistas.

Pode citar aí o Capello, o Wenger - ele é um estrategista. O Arsenal campeão inglês invicto com contra-ataques. O time vice-campeão europeu com cinco no meio e metendo bola pro Henry. É tudo muito bem pensado e estudado. Os treinadores de lá são bem mais detalhistas.

Lá você vê times jogando de maneira diferente nos campeonatos nacionais do que nas competições européias. O time joga domingo no campeonato e na quarta, você pode ver com escalação diferente, desenho tático diferente. Isso sobra aos de lá e falta aqui.

- Porque há muitos managers lá e poucos por aqui? É uma questão de cultura?

Totalmente moral. Se lá, um técnico tivesse participação em jogadores, algum tipo de lucro, não seria bem visto - dificilmente teria espaço pra trabalhar.

A diferença não é nem que aqui há menos moral que lá, porque você tem escândalos na Itália e na Alemanha, por exemplo. Problema moral existe em qualquer lugar. Mas lá não existe tanta confusão sobre de quem é o jogador como aqui.

- Trabalho do Lippi e do Klinsmann na Copa

O Lippi enfrentou muitas dificuldades por causa do escândalo. Teve a dúvida se o Buffon ia ou não, teve o problema com o filho dele. E ele lidou muito bem com a pressão. Ele soube chegar aos jogadores e falar que estava com eles até o fim. Chega a ser um pouco paizão.

Durante a Copa, com julgamentos andando na Itália, a situação do Pessoto, ele teve muita habilidade em administrar o grupo. A Itália não repetiu esquema na Copa, tinha variação tática - e sempre adaptado ao adversário. Ele perdeu o De Rossi, pos o Perrota, chegou a tirar o Gilardino - depois optou pela linha de quatro no meio.

Por ter treinado tudo isso durante a preparação, diferente do Brasil, por exemplo, quando tentou jogar de outro e não conseguiu, a Itália soube jogar de várias maneiras pra enfrentar várias situações. Quando precisou mexer no grupo teve resposta do time e dos jogadores.

Confiança do grupo: ele só não usou os dois goleiros reservas. No terceiro jogo já tinha usado todo mundo e fez todos se sentirem úteis. Os jogadores se sentiam importantes. Ele teve coragem de usar o De Rossi após quatro jogos e não foi questionado. Sem falar na modificação no jogo contra a Alemanha, que foi ou vai ou racha, com quatro atacantes quase. O jogo tinha morrido no meio-campo, e ele teve percepção de reparar que o contra-ataque alemão não era tão forte e teve o risco, risco calculado. Não foi kamikaze, foi pra cima consciente. Aquilo deu resultado. O trabalho em geral do Lippi foi muito bom, muito. Acho que ele vai dar uma parada pra descansar e depois volta por cima.

O Klinsmann enfrentou muitos problemas. Foi uma aposta arriscada, mas ele chamou a responsabilidade e foi fiel aos seus métodos e convicções começo. Ele teve a competência de trazer uma comissão boa.

Tendo sito atacante, ele soube armar o time ofensivamente e com seu equilíbrio, mesmo com as deficiências na defesa. A Alemanha não tinha jogadores que permitissem a ele montar uma defesa. Ele não testou muita gente e no final recorreu ao Nowotny, veterano.

Sabendo que essa defesa ia dar problema ele montou um time propositalmente voltado pro ataque, que correria riscos, mas garantiria gols. Ele tinha o Klose que ele sabia poder contar, teve méritos de fixar o Podolski, dar confiança pra ele. Deu confiança pro Ballack ser o novo capitão, tirando o Kahn - isso mostra uma coragem de mexer com uma instituição do futebol alemão.

Mesmo tão criticado, ele tomou decisões cruciais que mostraram que ele era preparado, e tinha condição de levar o time longe. Ajudou o fato de jogar em casa, mas o que trouxe a torcida pro lado da Alemanha foi o fato de convencer nos primeiros jogos. A vitória sobre a Polônia, mesmo sofrida, foi que colou de vez a torcida e o time.

O Klinsmann passava isso na beira do campo, pela postura dele. Ele era um técnico vibrante, que quase jogava junto com o time, que socava o ar quando o time perdia gol. Se você colocar isso em contraste com o Eriksson, que não saia do banco a Copa inteira, passava pro torcedor a vontade de vencer, a consciência de que era um técnico que tava tão disposto a ver o time ganhar quanto eles.

Na decisão contra a Itália, não havia muito que fazer, pendia muito pros dois lados e fez o que pôde. Contra a Argentina ele contou com a estrela do Klose. É aquele técnico que você pode perceber que não está plenamente pronto, mas tem uma aura vitoriosa em torno dele. Tanto é verdade que o terceiro lugar foi acolhido pelos alemães com gosto de título, em muita parte pelo carisma que ele tem.

É curioso até saber o que ele vai fazer da carreira agora. Vamos ver se ela assume os EUA pro ano que vem. É um treinador que eu gostaria de ver mais, até pra ver como evolui, porque ele tem margem de evolução.

- Domenech.

O teimoso que dá certo. Em alguns casos a teimosia passa de virtude a defeito com muita facilidade. Em momento nenhum da preparação ele jogou com Henry e Trezeguet juntos. A gente esperava que fosse o melhor pra seleção francesa e a gente viu o time começar muito mal.

A convicção no que ele pensava ser melhor pro time foi importante. Eu acho que ele tirou um pouco da França não ser tão cotada. Ele se virou pro Zidane, Thuram, Makelele, e deve ter usado muita a decepção de 2002 e 2004. Você não pode desmerecer o trabalho tático que funcionou muito bem, aquele 4-2-3-1.

A administração do grupo foi muito importante. O Trezeguet estava insatisfeito, e ele controlou bem. Na França, o Trezeguet não tava feliz. Méritos pra ele por ter encaixado o Ribéry que nem jogou na preparação. Se a França tivesse sido campeã do mundo, você não poderia atribuir ao Domenech a mesma parcela de participação que atribui ao Lippi pela Itália.

O brilhantismo individual do Zidane, a presença intimidadora do Henry que preocupa. Mas tanto tem seus méritos que renovou o contrato com justiça e ver o que o futuro reserva. Mas é aquela história, não entra pra história como um técnico brilhante, mas fez um trabalho descente.

Ele teve dificuldades pra renovar o time, mas talvez encontre agora jogadores mais prontos do que estavam. Tanto não esteja tanto pronto que ele insiste em contar com Thuram e Makelele. Se não contar pode ser uma renovação mais radical e a gente vai poder avaliar ainda mais o trabalho dele.

- Jogadores que mal encerram a carreira. Dunga, Donadoni...

É uma etapa natural. Os jogadores têm intenção de virarem técnicos até pra continuar no meio do futebol. Muito jogador quando se aposenta e larga, fica deprimido. Ele se acostuma a viver no meio do futebol, e de repente, não tem mais aquilo ali. Sente falta da badalação, da convivência com os jogadores. Acima de um grande desejo vem essa necessidade de permanecer no meio.

Muito deles não vêm preparados. Alguns jogadores quando estão pensando em parar a carreira, já começam a buscar certificação, fazer os cursos, não é o cara que vai parar de jogar e no dia seguinte virar técnico do time. Pode acontecer de dar certo também.

- E o que esperar do Dunga?

Eu espero um trabalho interessante. Ele traz à seleção a característica oposta do Parreira. Acho que ele pode pecar por excesso, até por não ter experiência na função. Na tentativa de renovação ele pode se exceder, trazer muita gente nova demais. Ele pode passar do ponto nessa parte motivacional.

Considerando que não temos a necessidade imediata de dois anos, a gente pode fazer uma experiência dessa com direito de errar. Dá tempo de trazer o outro nome sem necessidade de prejudicar muito o trabalho. Ele já é avaliado desde já e o Brasil joga muito esse ano.

- Pesando tudo, o treinador é mais valorizado que deveria?

Acho que ele tem a valorização certa. O trabalho do treinador não pode ser minimizado. Eu acho que ele deve ser valorizado. Está errado quando se coloca sobre as costas dele a responsabilidade quando dá tudo errado - como se faz hoje no Brasil. O técnico depende do grupo de jogadores, mas ele é o responsável por como vão atuar, por coordenar o relacionamento dos jogadores, treinar durante a semana.

Muitos técnicos não dão valor de treinar fundamento. Acho que alguns técnicos fazem menos do que se espera deles. Mas acho que ele é uma parte importante da estrutura do futebol e devem ser valorizados sim.

contato: dasslermarques@gmail.com


 

2/21/2007 10:57:05 PM

<< Topo

 

Últimas Reportagens:
4/15/2007 9:37:21 PM
3/5/2007 11:42:56 PM
2/21/2007 10:58:19 PM
2/21/2007 10:49:45 PM
2/21/2007 10:45:10 PM
2/21/2007 10:37:44 PM

 

 

Arenafc.com© Todos os direitos reservados